sábado, 28 de março de 2009

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"Para fazer frente à selvageria do capitalismo, para fazer frente à selvageria do Estado totalitário, inventaram a democracia de mercado, um monstro muito mais cruel. Se isto não é verdade, por que o número de desempregados aumenta todos os dias? Por que as pessoas temem sair às ruas? Por que acabaram com a música? Por que quase todos estão mais pobres? Por que falam em arrocho, em contenção salarial, em redução de verbas para a saúde, a educação, a cultura? Por que fomos excluídos? Por que nas negociações de salários perdemos sempre? Por que temos de nos humilhar para manter um emprego? Por que a escola piorou e a universidade se alienou? Para onde expulsaram nossos artistas? Quem são esses jornalistas que não sabem interpretar os fatos ou, pior ainda, não podem? Por que nos sentimos menos homens e mais incapazes? Quem são esses bufões sem talento na televisão que impregnam nossa alma com vulgaridades e nos levam a querer cometer crimes? Por que nossos filhos não mais nos reconhecem e não conseguimos compreendê-los? Temos de acreditar que as empresas precisam concorrer para a queda dos custos de produção? Temos de acreditar que para os custos caírem é preciso reduzir os empregos efetivos e os salários? Temos de excluir os menos qualificados e degradar as condiões de trabalho dos demais? Temos de ser substituídos por robôs que enguiçam e ainda pagar por isso? Por que estamos com medo? Onde ficou nossa compaixão e nossa solidariedade? Quem nos fez acreditar nesta história? É preciso encontrar este monstro que só se sente livre e satisfeito vendo os outros tristes e prisioneiros e dedicar o resto de nossas vidas para exterminá-lo como se extermina um câncer."

871ª noite do livro "A milésima segunda noite", do saudoso, espetacular, provável "irmão de alma" e, infelizmente, já morto, Fausto Wolff.

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